Editorial
OS PARADOXOS DO PLANEAMENTO DO TERRITÓRIO
Nova lei da REN envolta em trapalhada
Por paradoxal que pareça vivemos
simultaneamente um tempo de mudança e estagnação do ordenamento do território
em Portugal. Por um lado a dinâmica legislativa da qual é exemplo as novas
diretrizes para a Reserva Ecológica Municipal e por outro a não obrigatoriedade
de as ter em conta.
Com efeito as novas orientações
gerais seriam, segundo a legislação vigente, obrigatórias passaram a ser opção
das autarquias entretanto encarregues da tua definição. Com isto teremos não
uma REN Nacional, passe o pleonasmo, mas dois tipos de REN: as que estão de
acordo com a anterior legislação e as que ficarão ao abrigo da recente. Estes
ponto relevará uma incontornável incoerência a prazo uma vez que os conteúdos
são substancialmente diversos.
A lei da REN veio definir novos
parâmetros da sua construção impondo um prazo de três anos para que estivessem
em vigor. No entanto a nova lei vem dar o dito por não dito e diz que só altera
a REN quem quiser, quem não quiser pode deixar ficar assim.
O dito popular diz que se algo
nasce torto raramente se endireita e mandaria o melhor do Bom-Senso uma melhor
atenção aos pormenores que afinal são aspetos determinantes da lei. Assim se
pode destruir uma ação bem-intencionada por precipitação injustificável.
O TGV, outro dito por não dito, mas sem território para se executar
Mais outro dito por não dito é a
realização do TGV entre Lisboa e Madrid. Depois de fazer do seu cancelamento um
cavalo de batalha politica o governo vem agora anunciar que irá retomar a
ideia. Com “nuances” claro porque
mudará o nome e algumas características técnicas da ligação.
Com estas hesitações, que o não
pareciam ser, caducaram as medidas preventivas que estabeleciam o espaço-canal
nos Planos Diretores Municipais pelo que reina agora a classe de espaço
territorial definida nestes planos e, por consequência, neste momento, qualquer
viabilidade solicitada para este espaço terá de ser analisada de acordo com a
proposta definida em regulamento e não em função do regresso do TGV.
Foram anos, gastos de recursos
financeiros e técnicos a estabelecer estes espaços canais que por caducidade
das medidas preventivas se perderam. Agora serão mais anos e recursos a
estabelecer um novo espaço-canal. As teimosias políticas inconsequentes com
reflexos territoriais continuam a descredibilizar o planeamento e ordenamento
do território português.
Novo Secretário de
Estado de uma Secretaria de Estado equivocada nos conceitos e nomenclatura
Entretanto temos um novo Secretário de Estado para o
Ambiente e Ordenamento do Território. Não tem corrido bem estas nomeações.
Desde João Ferrão que esta secretaria de estado tem consumido técnicos como os
clubes de futebol em crise consomem treinadores.
No governo anterior Fernanda do Carmo,
neste Pedro de Paula e agora Paulo Lemos e pergunta-se por quanto tempo. A
falta de estabilidade na pasta é mais um contributo para o estado do
planeamento e do ordenamento do território.
Tal como nas figuras de planeamento quando não se determina,
com exatidão, os seus limites físicos ou eles não são coerentes com o objetivo
e nunca se obter coerência propositiva, também o conceito associado ao nome da
secretaria de estado se revela motivo de incoerência e, por consequência,
encerra, em si, dificuldades várias de gestão interna.
Com efeito a junção de pastas tão diferentes como o
Ordenamento do Território e o Ambiente tem vindo a criar problemas de gestão da
Secretaria de Estado face a interesses divergentes, senão no objetivo comum, na
praxis de cada uma das disciplinas.
A bem do Ordenamento do Território e do Ambiente, as
Secretarias de Estado devem ser distintas por forma a trabalharem os seus temas
em sede de um mesmo Ministério, de outro modo as contradições internas só
servem para bloquear as ações emergentes e urgentes que esta pasta tem de levar
a cabo na reforma do sistema.
Nestes superministérios cuja evidencia maior é o de Assunção
Cristas com a Agricultura, o Mar, o Ambiente e o Ordenamento do Território
quase não resta tempo para o exercício efetivo das funções, muito menos da
maior destas que é a reforma do sistema de planeamento face á inércia,
complexidade e morosidade em que caiu.
O atual Secretário de Estado entra a ter que resolver uma
contradição que transporta com ele: a de ser fundador de uma associação
ambiental que classificou a Ministra Assunção Cristas como destruidora de uma
das legislações que melhor defendiam as teses ambientais que era a Reserva
Ecológica Nacional.
Pedro Ribeiro da Silva

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